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A vida de Junior daria uma excelente História em
Quadrinhos, dessas de super-herói que de dia é uma pessoa
comum como milhões, mas à noite bota uma capa, assume seus superpoderes e sai em busca de deixar sua marca, como
pouquíssimos. No caso de Junior, muitos anos atrás, esse
momento de “transformação” acontecia quando ele deixava o
trabalho mortal de auxiliar de escritório e assumia a persona
de Juneca, o pichador.
Em uma cidade gigante como São Paulo, são poucos tais
“super-heróis” que criam uma marca visível - e os que fazem
sua marca sobreviver ao tempo são tão raros que mais parecem
ficcionais.
Por isso mesmo Juneca, parece até não existir de verdade. Em
mais de duas décadas, criou uma linguagem visual própria onde
não havia nada além de concreto; mais do que isso, como
precursor do grafite, reinventou a relação das pessoas com o
ambiente urbano. Juneca abriu os olhos de milhares de pessoas,
- em especial, jovens - para uma idéia tão óbvia que
permanecia desconhecida: não é porque São Paulo sofre com a
poluição que deve abdicar das cores. E assim, "desde 1981",
como ele nos conta, São Paulo passou a ser uma cidade mais
colorida, mais viva.
Sua arte pode ser tomada como uma interpretação paulistana da
pop art, conceito criado por Andy Warhol na metade do século
passado. Uma arte de caráter urbano, feita por e para jovens,
lançando mão de combinações alegres de tons, referências a
ícones da cultura (personagens de histórias em quadrinhos,
rock stars, figuras do noticiário). Traços simples, mas
capazes de transmitir, em segundos, emoção, mensagem e até
mesmo um certo aconchego: a profusão de cores humaniza o cinza
presente nas paredes e espaços públicos.
É claro que, como em qualquer trajetória urbana, Juneca, quando não está com a "capa" de
herói, conheceu uma série de obstáculos antes de realizar sua
"ficção". Apesar de toda a imponência e papel na vida cultural
do país, mesmo uma cidade como São Paulo, no começo da década
de 1980, não tinha espaço para a cultura urbana, e os
conceitos de "arte" eram restritos a galerias, museus e outros
espaços fechados. Mas nosso personagem não se deu por vencido
e abriu seu trabalho com as armas que tinha: talento, ousadia
e muito, muito spray. Armas essas que provocavam amor e ódio,
como o do ex-prefeito Jânio Quadros, que em sua última
administração (1985 - 1988), chegou a publicar na capa do
"Diário Oficial do Município" a frase "JUNECA VAI PICHAR A
CADEIA". Tal frase, como tantas outras proferidas por
políticos brasileiros, jamais chegou a se concretizar.
Ao contrário. Juneca foi o primeiro pichador a ser
identificado e reconhecido como tal. Mais tarde, abandonou a
pichação e se tornou grafiteiro, vivendo exclusivamente de sua
arte e tirando dela o necessário para seu sustento. Virou o
primeiro artista urbano a manter vínculos com a Prefeitura e o
governo estadual, levando seus trabalhos a espaços mantidos
pela administração pública.
Ou seja, de inimigo público se transformou em herói urbano: o
mesmo poder público que o abominava em seus tempos de pichador
agora curvava-se frente a seu trabalho.
Nada mau para quem começou ainda adolescente pichando seu nome
para aguçar a curiosidade das pessoas, e que logo se tornou o
anônimo mais conhecido de São Paulo, o pichador misterioso.
“Quem é Juneca?”, ou mais, “O que é Juneca?” foi durante muito
tempo nos anos 80 a maior lenda urbana de São Paulo.
Em seus tempos de pichador, embora todos já tivessem visto seu
nome em algum ponto da cidade, poucos conheciam Juneca de
fato. Mesmo o artista surpreendia-se com a fama e a
repercussão alcançadas: havia quem achasse que tratava-se de
um casal de namorados, tinha o que desconfiasse de marketing
para o lançamento de um novo produto, havia quem jurasse ser
um político em campanha. A curiosidade chegou à TV e vários
programas –inclusive o da apresentadora Hebe Camargo – sempre
especulavam sobre a identidade do misterioso pichador.
Mas sua fama logo haveria de aparecer, e assim aconteceu:
depois de deixar sua marca por todos os bairros e regiões da
capital paulistana e por cidades como São Tomé das Letras,
Campos do Jordão, Porto Alegre e Florianópolis, Juneca
abandonou as pichações e passou a receber uma infinidade de
convites para mostrar sua arte. Levou seu trabalho das ruas
para milhares de lares do Brasil, como cenógrafo de novelas e
programas de TV, foi o autor do projeto gráfico de festas,
campanhas publicitárias, construções particulares e até de um
disco da cantora Rita Lee. Seu trabalho é conhecido e admirado
por personalidades e anônimos, na capital paulista, no
interior, em outros estados e mesmo em outros países: já expôs
seus trabalhos na França e na Espanha, bem como no sisudo
MASP, em São Paulo.
Dentre tantos serviços à arte, dois tiveram gostos especiais
para Juneca: em um, ao lado de outros artistas de diversas
partes do mundo, ele pintou uma grande lona exposta na
Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento, a ECO 92, no Rio de Janeiro. O trabalho,
elogiado por nomes como o futuro ministro da Cultura, Gilberto
Gil, ajudou-lhe a compreender a dimensão do que fazia, além de
ter-lhe proporcionado o convívio com outros nomes do grafite.
Posteriormente, Juneca participou de um festival de hip-hop e
grafite em Marselha, França, onde fez uma retrospectiva de
seus trabalhos no Brasil e ainda integrou, ao lado de outros
grafiteiros, uma performance ao ar livre.
É bem verdade que, como qualquer artista, pode-se gostar ou
não de seu trabalho, que, depois de 25 anos, transformou-se
num portifólio sólido e eclético. Tal trabalho mostra bem como
foi que aquele garoto que pintava mobiletes no começo da
década de 1980 virou um artista com tráfego livre por ruas e
corredores universitários ( Juneca é formado em artes
plásticas ), e ganhou o respeito e a admiração da população e
de seus pares.
Pares, Juneca tem os seus. Desde Pessoinha, companheiro na
primeira pichação, até nomes como Alex Vallauri e Maurício
Villaça, que ajudaram a consolidar o grafite como arte urbana,
afastando-o da identificação com o vandalismo. Mas talvez seja
melhor dizer que existem dez mil "pares" de Juneca por São
Paulo, hoje em dia. O artista estima que exista, na cidade,
esse exército de pichadores, além de cerca de mil grafiteiros,
que hoje lhe prestam reverência e pedem autógrafos. Uma
espécie de culto, como o que o meio acadêmico lhe fez há duas
décadas, identificando-o como artista transgressor e
valorizando seu trabalho.
Um outro herói urbano, Peter Parker, o Homem-Aranha, certa vez
ouviu de seu tio uma frase que mudaria sua vida: "Um grande
poder vem acompanhado de uma grande responsabilidade". Com
Juneca, não é diferente. O artista rapidamente ganhou
consciência da repercussão que seu trabalho poderia alcançar.
E nele procurou embutir o que sentia e o que tinha a dizer.
Protestou pelas "Diretas já", pichando na cúpula do Congresso
Nacional, em Brasília, o slogan do movimento pela
redemocratização nacional - e isso em plena ditadura militar;
grafitou o repúdio ao massacre dos presidiários do Carandiru,
em 1992, nos muros da casa de detenção; participa com
freqüência de trabalhos sociais em escolas e centros culturais
da periferia paulistana, além de já ter realizado palestras em
lugares tão díspares quanto a Febem e empresas multinacionais,
além de escolas e faculdades.
E o exemplo não parou por aí: em 2001, Juneca apresentou à
Prefeitura paulistana um projeto com a intenção de levar
cidadania e arte à população carente. Participou, ainda, do
projeto Belezura, que arregimentou jovens, funcionários da
administração pública e voluntários e fez limpezas simbólicas
em lugares como o estádio do Pacaembu.
Parente próximo do movimento hip-hop, o grafite de Juneca,
mesmo sem o artista saber, caminhou junto com a explosão de
outras vertentes da cultura de rua, como o rap e o break.
Apesar de não ter feito essa distinção de imediato, Juneca
sempre enxergou sua arte como um elemento usado como fonte de
informação para a periferia, um veículo através da qual ela
podia dizer o que pensa e o que sente. Entretanto, numa cidade
que viu florescer a cultura urbana toda de uma vez, como São
Paulo, torna-se difícil ignorar o paralelo cultural havido
entre todas as manifestações que ganharam as ruas. Nomes como
Rappin' Hood e Mano Brown (Racionais MCs) não escondem sua
admiração por Juneca, citado até mesmo por Afrika Bambaataa,
papa do hip-hop mundial.
Heróis e personagens de ficção têm sentimentos, mas nosso
artista, ou nosso herói, enfim, é gente de verdade, com um
“superpoder” espontâneo, natural. E de onde ele acha que veio
essa vontade de pichar? A espontaneidade de Juneca fala por
ele: “A primeira coisa que se aprende na escola é a escrever
seu nome. Todo mundo se sente à vontade para escrever o
próprio nome e aprende a gostar disso. Aí, quando você cresce
e se vê um jovem de periferia, a luta para escrever seu nome
em algum lugar se potencializa pela falta de oportunidade." E
o grafite foi a oportunidade que Juneca viu para escrever seu
nome. E seu nome, então, estará para sempre escrito. Por um
spray. |
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